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FOME EMOCIONAL, APETITE POR DOCES, E DEPRESSÃO OUTONO/INVERNO


O mês de Outubro e o início do Outono é uma altura crítica para muitas pessoas que experienciam alterações no apetite, vitalidade, sonolência e humor, refugiando-se não poucas vezes numa necessidade insaciável e louca por hidratos de carbono e doces. Muitas vezes o ganho de peso é inevitável, reforçando ainda mais o sentimento de impotência, culpa, e fracasso. Esta condição é há muito reconhecida e classificada como Desordem Afetiva Sazonal (DAS, Seasonal Affetive Disorder), com uma causa bem identificada – a redução do tempo de exposição à luz.

O funcionamento do nosso sistema neuroendócrino é regulado por uma estrutura no cérebro denominada Núcleo Supraquiasmático (SCN), que integra sinais externos de exposição à luz solar. Os fotões são captados pelos nossos olhos e sinalizam o SCN de que é dia, ou o estímulo cessa para indicar que já é noite. Várias hormonas funcionam de acordo com este ritmo circadiano, entre elas a Melatonina, hormona produzida na pineal que nos prepara para o sono e dirige uma verdadeira orquestra de outras hormonas e neurotransmissores. A exposição à luz é um sinal para parar de produzir Melatonina, é hora de despertar.

Por altura do Outono os dias ficam mais curtos. Amanhece mais tarde e anoitece cada vez mais cedo. No entanto, os nossos horários laborais e rotinas não mudam de acordo. Continuamos a acordar à mesma hora e a chegar a casa à mesma hora, muitas vezes já de noite. Ora, a nossa vida quotidiana fica dessincronizada do nosso relógio biológico. Paramos de produzir Melatonina demasiado tarde, e começamos a produzi-la demasiado cedo. O tempo de exposição à Melatonina em actividade aumenta, e esta é uma das causas da Desordem Afetiva Sazonal – um atraso de fase no nosso relógio biológico. E uma das consequências é precisamente o aumento da fome na segunda metade do dia.

Sabe-se também que na Desordem Afetiva Sazonal os níveis e açção pós-sináptica da Serotonina baixa. A Serotonina é um neurotransmissor importante no humor, alegria, bem-estar, relaxamento, controlo de impulsos, e saciedade. Uma diminuição dos seus níveis e acção está associada à depressão, e não é por acaso que a maioria dos anti-depressivos actua por aumento da Serotonina. Um estudo verificou que indivíduos diagnosticados com DAS apresentavam 5% mais receptores SERT, transportados pré-sinapticos de Serotonina. Desta forma, a remoção de Serotonina da fenda sináptica é mais rápida e eficiente, reduzindo a sua ação pós-sinaptica. Como consequência experienciamos sintomas depressivos e, para o caso, aumento de apetite e particularmente por doces, com uma vontade incontrolável e insaciável.

E porquê especificamente os doces e hidratos de carbono? Simplesmente porque a sua ingestão facilita a elevação da Serotonina. Este neurotransmissor é sintetizado a partir de um aminoácido, o Triptofano. Para que isso aconteça este tem de atravessar a barreira hematoencefálica, da circulação sanguínea para o cérebro. Ora, o transporte de Triptofano para o cérebro compete com o dos aminoácidos de cadeia ramificada. O aumento da insulina decorrente da ingestão de açúcar e outros hidratos de carbono canaliza os aminoácidos de cadeia ramificada para os tecidos periféricos, músculo e tecido adiposo, reduzindo a sua concentração em circulação. Desta forma, a concentração relativa de triptofano aumenta, passando facilmente a barreira hematoencefálica para o cérebro, onde é percursor da síntese de Serotonina.

Uma outra explicação para a diminuição da serotonina é a reduzida exposição à luz solar, e dependendo da latitute, o próprio ângulo de incidência da radiação nesta altura do ano. Não sintetizamos Vitamina D. E para que é a Vitamina D aqui chamada? A Triptofano Hidroxilase, enzima responsável pela conversão do Triptofano em Serotonina, é controlada transcripcionalmente pelo Calcitriol, a forma activa da vitamina D. Com a redução dos níveis que ocorre no Outono e Inverno poderemos então ter uma inibição da síntese de Serotonina, exacerbando os sintomas depressivos e descontrolo do apetite típicos da DAS.

E como tratar a Desordem Afetiva Sazonal? Na maior parte dos casos os sintomas desapareceram na Primavera e Verão, podendo muitas vezes ser seguida de uma espécie de euforia transitória. No entanto, duas estratégias podem ser implementadas para aliviar os sintomas da DAS e reduzir a fome compulsiva por açúcar.

Terapia de luz
Como vimos, uma das causas da DAS é precisamente a dessincronização do nosso relógio biológico e níveis elevados de Melatonina durante o dia. A exposição a luz branca forte e directa nos olhos de manhã, por cerca de 30 min, facilita a inibição da produção de Melatonina.

 

Terapia com Melatonina

A toma de Melatonina à noite de forma a mimetizar o que aconteceria em condições ideais é também uma estratégia aplicada no tratamento da DAS. Mais concretamente, 6 horas antes do ponto médio do tempo de sono esperado. Se o objectivo é dormir 8 horas, a Melatonina deverá ser tomada 2 horas antes de deitar. A dose poderá andar entre as 0,5 mg e as 2 mg, idealmente conjugada com a terapia de luz que falámos anteriormente. O gráfico abaixo ilustra essa situação.

A suplementação com Vitamina D3 e 5-HTP é também uma possível estratégia nutricional, embora nem todos os indivíduos respondam à ultima de forma positiva. O objectivo será obviamente prevenir a diminuição da actividade da Triptofano Hidroxilase no Inverno, e fornecer um percursor para a síntese de Serotonina como o 5-HTP, um derivado do Triptofano. A ingestão de hidratos de carbono fraccionada pelo dia poderá também ajudar no processo, ou pelo menos  deveremos evitar a sua restrição. Assegurar a maior parte destes hidratos de carbono no período da manhã poderá facilitar a normalização de fase circadiana.

A Desordem Afetiva Sazonal é um problema mais comum do que se poderá julgar, e na verdade desconhecido da maior parte das pessoas. O que não se conhece, não existe. No entanto pode afetar drasticamente a qualidade de vida e facilitar o ganho de peso no Inverno, promovendo aumento drástico do apetite e compulsão alimentar. A solução existe, embora passe essencialmente por alterações no estilo de vida nem sempre fáceis de implementar. Mas aqui ficam algumas estratégias simples que podem ser adoptadas no sentido de aliviar os sintomas e retomar o controlo sobre o nosso apetite, e sobre o nosso peso nesta altura do ano.

FONTE:FatNewWorld Sérgio Veloso
FOTOGRAFIA: VisualHunt.com

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